26 de outubro de 2020

Todos em volta do frango

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Nina Horta

Ali, fumegando na mesa, as coxas apontando para o céu. Sem adjetivos, um frango é nada, insosso. Não dá para comer. Precisa ser caipira ou, no mínimo, carijó. Branco, nem pensar. O tempero devia ser apenas sal, pimenta do reino e vinagre. Em algumas casas usavam também a cebola e o alho. Um desperdício. Na hora de assar, um alecrim enfiado entre a pele e a carne como dinheiro em bolso de malandro. O cheiro do alecrim não podia sair e entrava na carne. Se não havia criação na casa, se comprava o frango de vara, na porta. Precisava um tempo no galinheiro para limpar por dentro. Comia só milho. E a pele ia ficando amarela, e o bicho engordava. Na mesa, todos em volta do frango. À mãe cabia dividi-lo porque mãe é quem sabe tudo sobre o gosto de cada um. O pai em primeiro. Se gostava de peito, os filhos comiam as coxas; se gostava de coxas, os filhos comiam o peito, de forma que as gerações iam se alternando no gosto de coxas e peitos. E se o avô vinha almoçar, matava-se dois frangos para que não houvesse disputa entre netos e avô – o que hoje chamam de conflito de gerações. A mãe sempre comia a sobreasa, que não é coxa nem peito e nem asa e não entrava na disputa. Mãe é mãe, sempre pairando acima dos conflitos. A asa só se comia na gula. Ou sobrava para a empregada que, no geral, gostava mesmo é de sobrecu, chamado de curanchim ou uropígio para não introduzir o cu no festim. Nunca vi comer sobrecu à mesa. Sempre na cozinha. A mãe sabia trinchar só com faca e garfo, desarticulando as partes do frango e provando, no gesto, que fora bem assado. Era o ponto. Acho que deve-se aos franceses a tesoura de trinchar frangos: a cabeça do fêmur grudada na carcaça, a sobreasa com pedaço de peito e de asa… Um horror! Ao invés da comunhão, uma cena de mutilação presidida pela mãe. Como uma família assim poderia se amar e se respeitar? E vieram os supermercados, com as partes de frango em bandejas resfriadas. O frango decomposto, com cheiro que nem alecrim cura, sem gosto, molenga, gordura doente que não serve para canja. Cada filho come na hora que bem entende. A empregada já não precisa saber nada. É por isso que eu digo: família é, por exemplo, comer harmoniosamente um frango.

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2 thoughts on “Todos em volta do frango

  1. Impressionante como esse texto me transportou para quase 40 anos atrás. Eu saí, por um instante, daqui.
    Me vi sentada ao redor da mesa com minha família, a galinha caipira sobre a mesa e a expectativa, minha e dos meus irmãos, de ganhar aquele pedaço do frango tão desejado. E assim se repetia todos os domingos.
    Viajei, rs.

    1. A Nina Horta, colunista d’O Estado de São Paulo, foi muito feliz nesta pequena crônica. Mais que comida, ele ensaia um conceito de família, das pequenas alegrias cotidianas. Este é um dos contos que uso no curso de Escrita Criativa

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