25 de novembro de 2020

Manual do Bom Leitor

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Não sei se você gosta de dançar. Não sei se você dança bem. Em minhas aulas, aprendi que quem conduz na dança é o homem. Na prática, toda vez que a mulher, mesmo dançando melhor, tenta fazê-lo, o resultado é desastroso.

A condução feminina se dá de uma maneira delicada e sutil, de desejos suaves, e cabe ao bom cavalheiro saber ler e atender a esses anseios. Esses pedidos se dão em entrelinhas e, quando não atendidos, obrigam a dama a tentar conduzir. Não há aqui um culpado, mas sim uma falta de sintonia.

Na escrita e na leitura, o escritor é o cavalheiro, o leitor, a dama. Cabe ao bom escritor saber ler de antemão os desejos do leitor, para, da melhor forma possível, conduzi-lo no salão de nossa imaginação, bailarem ambos por horas a rodar pelo salão. O leitor tem que confiar em seu parceiro, entregar-se em seus braços por inteiro e deixar-se levar noite adentro, sem tentar conduzi-lo ou olhar ao redor para ver quem mais dança pelos salões.

Um bom cavalheiro sempre deixará sua dama, no momento certo, sonhar e expressar seus desejos, com a mão firme por detrás das costas dar-lhe-á dicas de que caminho a seguir. A mão, firme, no entanto, tem de ter sensibilidade suficiente para apurar os desejos das costas, das pernas e pés, e todo o resto para, em comunhão, inventarem novos passos e caminhos.

Há arte quando não se é mais cada um cada um e sim uma terceira pessoa; onde não mais existe dama ou cavalheiro, nem danças ou livros.

Assim é a dança, assim é a leitura, assim é a vida.

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